segunda-feira, setembro 28

Olimpíadas de Xadrez 2026: o que Samarcanda vale na história do xadrez português

 Passada a azáfama das onze rondas, fica o exercício que só se pode fazer no fim: pôr os números de Samarcanda ao lado dos das melhores participações portuguesas de sempre. E o que se vê é uma edição que corrigiu, nas duas seleções, o desaire de Budapeste, há dois anos, e que devolveu a equipa absoluta ao patamar dos seus melhores resultados na Era Open. Do lado feminino, o salto foi ainda maior, embora partisse de mais baixo.

Os números de Samarcanda

A seleção absoluta terminou em 43.º lugar, com 14 pontos de encontro e 27 de tabuleiro, num percurso de cinco vitórias, quatro empates e duas derrotas. A seleção feminina fechou em 58.º, com 13 pontos de encontro e 25 de tabuleiro, resultado de seis vitórias, um empate e quatro derrotas. As duas equipas despediram-se a ganhar pelo mesmo 2,5-1,5, frente à Coreia do Sul e à Nova Zelândia.

São números que ganham sentido quando comparados. Sozinhos, dizem pouco.

A seleção absoluta: o quinto melhor resultado de sempre

Segundo a Federação Portuguesa de Xadrez, o 43.º lugar de Samarcanda iguala a quinta melhor classificação portuguesa na Era Open das Olimpíadas. À frente ficam apenas quatro edições: o 17.º lugar de Dubai, em 1986 — que continua a ser o registo de referência do xadrez português —, o 32.º de Salónica em 1984, o 39.º de La Valleta em 1980 e o 41.º de Baku em 2016. No mesmo 43.º lugar estão Manila 1992 e Chennai 2022.


O paralelo com Chennai merece atenção, porque o mesmo lugar esconde dois torneios de feitio diferente. Em 2022 Portugal fez 13 pontos de encontro e 29,5 de tabuleiro; em 2026 fez 14 de encontro e 27 de tabuleiro. Traduzindo: em Samarcanda a equipa ganhou mais encontros, mas ganhou-os por margens estreitas. Em Chennai perdeu mais vezes o encontro e, ainda assim, arrecadou mais pontos individuais — foi o maior total de tabuleiro que a Federação regista numa participação portuguesa.

É uma diferença de temperamento que se lê bem no percurso de Samarcanda. Quatro dos onze encontros acabaram empatados, e três das cinco vitórias foram por 2,5-1,5 ou 3-1. Houve dois 4-0, com as Maldivas e a República Dominicana, mas a equipa passou a prova quase sempre em encontros decididos ao detalhe.

A recuperação face a Budapeste

O contraste mais eloquente não é com 2022 mas com 2024. Em Budapeste, a seleção absoluta terminou em 82.º lugar, com 11 pontos de encontro e 25,5 de tabuleiro. Samarcanda representa, portanto, uma subida de trinta e nove lugares, três pontos de encontro e um ponto e meio de tabuleiro.


A seleção feminina: a melhor em catorze anos

Do lado feminino, a Federação escreve que a classificação final foi, em termos absolutos, a melhor dos últimos catorze anos. O que se pode acrescentar com números confirmados é que 2026 superou as duas edições anteriores em todos os critérios: 58.º lugar contra 63.º em Chennai e 88.º em Budapeste; 13 pontos de encontro contra 12 e 11; 25 pontos de tabuleiro contra 22 e 21,5.

Trinta lugares de diferença para a edição anterior é uma variação que raramente se explica por um só motivo, mas há um dado que ajuda: seis vitórias em onze encontros, mais do que a seleção absoluta conseguiu. A equipa feminina foi menos regular — quatro derrotas, duas delas por 0-4, com a Bulgária e com a Estónia — mas pontuou com mais frequência quando teve oportunidade.

E trouxe de Samarcanda uma coisa que não se lê na tabela: Bianca Jeremias conquistou o título de mestre FIDE feminina, com 6 pontos em 9 partidas no tabuleiro de reserva, e Raquel Duque ficou a meio ponto do mesmo objetivo. Camila Avelino e Bianca Jeremias foram, aliás, as duas únicas jogadoras portuguesas das duas seleções, além de Bruno Martins, a sair da prova com Elo ganho.

Uma ressalva de leitura

Comparar lugares entre edições exige cautela, porque o campo tem crescido. Budapeste 2024 recebeu 197 equipas na secção aberta e 183 na feminina; Samarcanda contou com mais de duzentas na aberta e cerca de cento e noventa na feminina. Um 43.º lugar em 2026 é, em rigor, disputado entre mais concorrentes do que um 43.º lugar em 1992 — o que valoriza o resultado, mas também torna qualquer tabela histórica uma aproximação, e não uma medida exata.

O que fica

Fica uma seleção absoluta de volta ao lote das suas melhores participações, com o melhor total de pontos de encontro das últimas edições recentes e um invicto — Bruno Martins, 8 pontos em 10 partidas, seis vitórias e quatro empates. Fica uma seleção feminina que fez a sua melhor prova em mais de uma década e que saiu de Samarcanda com uma jogadora titulada e outra à porta do título. E fica a sensação, difícil de traduzir em números, de que as duas equipas jogaram esta Olimpíada acima do que o seu lugar no ranking inicial fazia prever.

Fontes: FPX — Portugal fecha Olimpíada Absoluta na 43.ª posição · FPX — Seleção feminina termina Olimpíada com vitória · FPX — Portugal termina Olimpíada absoluta em 43.º (Chennai 2022) · FPX — Olimpíada feminina: Portugal acaba em 63.º (Chennai 2022) · Chess-Results, Samarcanda 2026 · Chess-Results, Budapeste 2024