O dia de descanso em Samarcanda serve para os capitães fazerem contas. Portugal chega a meio da prova com dois cenários distintos: a seleção absoluta cumpriu o que o seu Elo médio anunciava, a seleção feminina ficou aquém. Mas os pontos de encontro contam apenas parte da história. Quem paga a fatura, ronda após ronda, são os jogadores — e essa fatura mede-se em Elo.
Antes dos números, uma nota que explica muito do que se segue. O Elo funciona como um contrato de expectativas: contra adversários mais fracos, vencer quase não rende e empatar custa caro. Para uma equipa que é a 49.ª cabeça de série nos absolutos e a 57.ª nos femininos, e que nas primeiras rondas defronta países de menor tradição, o saldo tende naturalmente para o vermelho. Acresce que o coeficiente K não é igual para todos: os jogadores que já passaram os 2400 pontos são avaliados com K=10, os restantes com K=20. Daí que uma desilusão na secção feminina custe, em Elo, o dobro da mesma desilusão na secção absoluta.
Seleção absoluta: um em cinco a ganhar Elo
Oito pontos de encontro e 16,5 de tabuleiro, 52.º lugar. Individualmente, o quadro é este, após seis rondas:
Bruno Martins é o único português com saldo positivo, e não por pouco: 4,5 pontos em cinco partidas, performance de 2414, acima do seu próprio Elo. Foi o jogador mais constante da equipa e o único que ainda não perdeu. Numa seleção em que os quatro tabuleiros estão separados por pouco mais de 120 pontos de Elo, ter o quarto tabuleiro a somar quase sempre é uma vantagem competitiva real.
No extremo oposto, Jorge Viterbo Ferreira paga o preço de ser o primeiro tabuleiro de uma equipa média: enfrentou a série mais dura de adversários, com média próxima dos 2330 pontos, e fez 50% dos pontos. É um resultado que, no primeiro tabuleiro, não é mau — mas que, para quem tem 2529 Elo, custa 12,4 pontos de Elo, a maior perda da equipa. André Ventura Sousa segue caminho semelhante, com três pontos em cinco e −8,9 Elo. José Francisco Veiga é, depois de Martins, quem melhor segurou o seu capital: 3,5 pontos, apenas −4,1 Elo.
O caso de Luís Galego merece contexto. Entrou em quatro rondas, venceu três e perdeu uma, no Líbano. É a função clássica do suplente numa olimpíada — entrar contra equipas de nível mais baixo, arrumar o ponto e sair — e nessa função o saldo de 3 em 4 é aceitável, mesmo que a derrota da 5.ª ronda tenha deixado a performance nos 2196. No conjunto, a equipa perde 27,4 pontos de Elo a meio do torneio.
Seleção feminina: o dobro do custo
Sete pontos de encontro, 12,5 de tabuleiro, 70.º lugar. O 0-4 sofrido com a Estónia, na 6.ª ronda, pesa aqui mais do que o resultado sugere.
Filipa Pipiras venceu as três partidas em que partiu como favorita e perdeu as duas em que defrontou jogadoras de 2400 — Nurgyul Salimova e Mai Narva. É o percurso previsível de um primeiro tabuleiro isolado: a diferença entre ela e a segunda tabuleira portuguesa ultrapassa os 270 pontos de Elo, o que a obriga a defrontar quase sempre adversárias acima do seu nível. Perder 7,8 pontos Elo nestas condições é um mal menor.
O ponto sensível está nos tabuleiros intermédios. Camila Avelino e Mariana Silva somam duas derrotas de Elo pesadas, −18,2 e −15,8, com performances cerca de 160 pontos abaixo do respetivo Elo. Nenhuma das duas teve um encontro fácil pelo caminho, mas as partidas contra adversárias de nível equivalente — as que decidem encontros como o de Trindade e Tobago — escaparam-lhes. Em contrapartida, Raquel Duque e Bianca Jeremias seguram-se com saldos curtos, −5,4 Elo e −4,4 Elo, e são, em termos relativos, as que mais se aproximaram do seu valor.
O saldo coletivo é de −51,6 pontos de Elo. Convém, ainda assim, relativizar: com K=20, a mesma percentagem de pontos custa o dobro do que custa aos colegas da secção absoluta. Medida em performance, a diferença entre as duas equipas é bastante menor do que o saldo de Elo faz parecer.
E agora?
A 7.ª ronda arranca hoje. Nos absolutos, Portugal defronta o Panamá na mesa 29, com a equipa panamiana a jogar de brancas no 1.º e 3.º tabuleiro — um adversário com quatro jogadores entre os 2160 e os 2350 pontos, portanto um encontro equilibrado e daqueles em que Bruno Martins, no quarto tabuleiro, volta a ser peça decisiva. Na secção feminina, Portugal joga de negras no 1.º e 3.º tabuleiro frente aos Emirados Árabes Unidos, na mesa 33. São dois encontros em que Portugal não é claramente favorito nem claramente desfavorecido — exatamente o tipo de jornada que, na segunda metade de uma olimpíada, separa o 50.º lugar do 70.º.
Fontes: Chess-Results — secção aberta, ficha de Portugal · Chess-Results — secção feminina, ficha de Portugal · Chess-Results — emparelhamentos da 7.ª ronda · Federação Portuguesa de Xadrez