| Bianca Jeremias. Crédito: FPX |
Bianca Jeremias saiu de Samarcanda com o título de mestre FIDE feminina, conquistado na 11.ª e última ronda da Olimpíada. Foi o seu nono jogo na prova — exatamente o mínimo exigido pelo regulamento — e o meio ponto que somou nesse dia foi o que a colocou do lado certo da percentagem.
A regra dos 65 por cento
O regulamento de títulos da FIDE, na tabela de títulos diretos em vigor desde janeiro de 2026, prevê que a secção feminina da Olimpíada atribua o título de mestre FIDE feminina a quem consiga 65 por cento dos pontos num mínimo de nove partidas. Para o título de candidata a mestre a exigência baixa para 50 por cento em sete partidas.
É uma regra simples de enunciar e traiçoeira de cumprir, porque impõe duas condições ao mesmo tempo: a percentagem e o número de partidas. Quem folga rondas arrisca-se a chegar ao fim com uma boa percentagem e jogos a menos; quem joga tudo dilui os bons resultados nos maus.
Bianca Jeremias folgou nas duas primeiras jornadas e jogou as nove seguintes. Terminou com 6 pontos em 9 partidas — 66,7 por cento, um ponto e sete décimas acima da linha.
O percurso, ronda a ronda
A estreia olímpica correu-lhe mal: perdeu a primeira partida, na 3.ª ronda. A partir daí não voltou a perder. Foram oito partidas seguidas sem derrota, com quatro vitórias e quatro empates, e uma sequência final de quatro empates consecutivos em que o mais valioso foi o da 10.ª ronda, contra Ernestina Adam, da Argentina, 245 pontos de Elo acima dela.
O balanço fecha em 1950 de performance, para um Elo de partida de 1941, e num ganho de 5,6 pontos. Bianca Jeremias foi uma das três jogadoras portuguesas, entre as duas seleções, a sair da Olimpíada com Elo ganho.
A última ronda valia tudo
À entrada da 11.ª ronda, Bianca tinha 5,5 pontos em 8 partidas. A conta que tinha pela frente era esta: com oito jogos não chegava ao mínimo regulamentar, por muito boa que fosse a percentagem; com nove jogos e uma derrota ficaria em 5,5 pontos, ou seja, 61,1 por cento, abaixo da linha; com nove jogos e pelo menos um empate chegaria aos 6 pontos e aos 66,7 por cento.
Ou seja, tinha de jogar e não podia perder. Jogou no quarto tabuleiro do encontro com a Nova Zelândia, com as peças brancas, e empatou com Emily Gan. O mesmo meio ponto selou o título e fechou a vitória portuguesa por 2,5-1,5. A Federação Portuguesa de Xadrez chamou-lhe, com razão, um empate com sabor a vitória.
A mesma conta, do outro lado
Há um detalhe que dá à história um remate quase cruel. Raquel Duque, campeã nacional, entrou na última ronda exatamente na mesma situação: 5,5 pontos em 8 partidas, à distância de um empate do mesmo título. Jogou no terceiro tabuleiro, com pretas, e perdeu. Terminou com 5,5 em 9, que dão 61,1 por cento — a percentagem que Bianca teria tido se tivesse perdido a sua.
Duas jogadoras portuguesas, a mesma pontuação, a mesma exigência, a mesma jornada, resultados opostos. A Federação escreve que a derrota frustrou as expectativas da campeã nacional, e é difícil dizê-lo de outra maneira.
O que isto vale
Um título de mestre FIDE feminina não é uma norma, é um título conquistado de uma só vez, sem necessidade de repetir o feito noutro torneio. E chegou numa Olimpíada em que a seleção feminina fez a sua melhor prova em catorze anos, segundo a Federação, terminando em 58.º lugar com 13 pontos de encontro.
Para uma jogadora que entrou na prova a folgar duas rondas e a perder a primeira partida que jogou, é uma forma notável de acabar.
Fontes: FPX — Bianca Jeremias conquista título de mestre FIDE · FPX — Seleção feminina termina Olimpíada com vitória · FIDE — Tabela de títulos diretos em vigor desde 1 de janeiro de 2026 · Chess-Results — secção feminina, Samarcanda 2026