A Olimpíada não distribui só medalhas por equipas. Em cada um dos quatro tabuleiros há ouro, prata e bronze individuais, e a três rondas do fim já é possível ver quem está em posição de os arrecadar. Com a 9.ª ronda a decorrer em Samarcanda, os dados completos são os de após oito rondas — e revelam uma corrida em que o critério de atribuição pesa tanto como o xadrez jogado.
A regra que decide tudo
As medalhas individuais não vão para quem somou mais pontos. Vão para quem tem a melhor performance de torneio no seu tabuleiro, calculada a partir da pontuação e da força dos adversários. O regulamento da FIDE para esta edição é explícito quanto ao critério e quanto a uma condição que está a moldar a prova: é preciso ter jogado pelo menos oito partidas para ser elegível a um prémio de tabuleiro. Em caso de igualdade na performance, desempata quem tiver jogado mais partidas.
São onze rondas e quatro tabuleiros por encontro, com um suplente. Isto significa que um jogador que tenha descansado três vezes fica de fora, por muito boa que tenha sido a sua prestação. E há mais: as vitórias atribuídas administrativamente não contam. A página oficial dos prémios por tabuleiro ignora expressamente as faltas de comparência — o que tem consequências diretas para os Países Baixos, que na 6.ª ronda receberam um 4-0 sem jogo contra Israel.
O quadro após oito rondas
Uma nota de método, para que o leitor saiba o que está a ler: as performances, as pontuações, o número de partidas válidas e os ganhos de Elo são valores publicados pelo Chess-Results. Os Elos médios dos adversários foram calculados por nós, somando os Elos de cada adversário defrontado e dividindo pelo número de partidas. Os ganhos de Elo são parciais, não incluem a 9.ª ronda e usam o coeficiente do torneio.
Tabuleiro 1: um rapaz de quinze anos à frente de todos
A liderança do primeiro tabuleiro pertence a Yagiz Kaan Erdogmus, e isso é notícia por si. O turco nasceu em junho de 2011: tem quinze anos. Foi grande mestre aos 12 anos e 10 meses, o quarto mais jovem da história, e chegou aos 2716 de Elo em agosto deste ano. Leva 6 pontos em 7 partidas, com empates contra Abdusattorov e contra Vincent Keymer — precisamente os dois primeiros tabuleiros das duas equipas que lideram a prova — e uma performance de 2893.
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| Yagiz Kaan Erdogmus. Olimpíada de Xadrez FIDE 2026 – Samarcanda. Crédito: Michal Walusza / FIDE |
Falta-lhe uma partida para ficar elegível. Joga hoje com a Bulgária, contra Arkadij Naiditsch, e basta-lhe entrar em campo para resolver a questão da elegibilidade.
Atrás dele, Abdusattorov já cumpriu as oito partidas e tem a seu favor um detalhe que a tabela mostra bem: defrontou a oposição mais forte de todos os candidatos, com um Elo médio de adversários de 2643. Os seus 2836 valem, em rigor competitivo, mais do que o número sugere. Hoje defronta os Estados Unidos, o que na prática significa um encontro direto com outro candidato ao pódio do primeiro tabuleiro.
Tabuleiro 2: a melhor performance da prova, e um problema de contabilidade
Os 2972 de Jorden van Foreest são a melhor performance entre os quatro tabuleiros.
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| Jorden van Foreest. Olimpíada de Xadrez FIDE 2026 – Samarcanda. Crédito: Michal Walusza / FIDE |
Só que o neerlandês tem apenas seis partidas válidas — a vitória administrativa contra Israel não conta — e faltam três rondas. Tem de jogar duas das três para chegar ao mínimo. É o caso mais apertado de toda a corrida, e depende menos dele do que do capitão.
Sindarov e Wei Yi seguem a meio ponto de performance, ambos com sete partidas e uma só em falta. A FIDE assinalou que Wei Yi se mantinha invicto na prova, e o chinês somou na 8.ª ronda uma das combinações mais bem construídas da jornada, contra Szymon Gumularz.
Tabuleiro 3: o único que já não depende de ninguém
Frederik Svane é, de todos os líderes de tabuleiro, o único que reúne as duas condições ao mesmo tempo: lidera a performance e já cumpriu as oito partidas.
Frederik Svane. Olimpíada de Xadrez FIDE 2026 – Samarcanda. Crédito: Michal Walusza / FIDE
Os 6,5 pontos em 8 e a performance de 2811 foram sublinhados pela ChessBase depois da vitória sobre Yakubboev que travou o pleno do Uzbequistão. É também o maior ganho de Elo deste grupo, com +16,3. Hoje a Alemanha defronta a Índia, e Svane volta a ter adversário de topo.
Tabuleiro 4: o mesmo número, valores diferentes
Marc'Andria Maurizzi lidera com 2769 e 6 pontos em 7, mas é aqui que o Elo médio dos adversários conta uma história que a performance sozinha não conta: o francês defrontou uma oposição de 2460 de média, a mais fraca entre todos os candidatos.
Gukesh, logo atrás com 2739, jogou contra 2488 de média e já tem as oito partidas feitas. A França defronta hoje a China, o que deve resolver parte da dúvida sobre a qualidade da oposição de Maurizzi.
O que esperar até domingo
Faltam três rondas e a 9.ª coloca quase todos os candidatos frente a adversários de primeira linha: Uzbequistão-Estados Unidos na mesa 1, Índia-Alemanha na 2, França-China na 3 e Uzbequistão 2-Países Baixos na 4. Nenhuma destas performances vai ficar onde está.
A leitura mais segura, neste momento, é a do terceiro tabuleiro, onde Svane controla o seu destino. As mais incertas são as do segundo, por causa da contabilidade de Van Foreest, e a do primeiro, onde Erdogmus tem a melhor performance, mas ainda tem de a confirmar contra adversários que, em média, foram mais fracos do que os de Abdusattorov. Convém recordar que nada disto está decidido: a medalha é atribuída pela performance ao fim das onze rondas, e três partidas contra adversários de 2600 ou 2700 mexem estes números com facilidade.
Fontes: Regulamento da FIDE para a Olimpíada 2026 · Chess-Results — prémios por tabuleiro, secção aberta · Chess-Results — secção aberta · ChessBase — Samarkand R8 · Chess.com — Olympiad Round 8 · FIDE — Olympiad Day 8 · Wikipédia — Yağız Kaan Erdoğmuş